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Golpes de Mestre
   

Demolir : "deitar abaixo, desmantelar, destruir, derrubar ".
É o que diz o dicionário Aurélio, mas não é exatamente o que diz a prática .

Para os profissionais da atividade, quando se fala em demolição o primeiro pensamento não é destruir, mas salvar.
Salvar tudo, absolutamente tudo que for possível, antes de "deitar abaixo".

O aproveitamento dos materiais de uma construção constitui a principal fonte de uma demolidora, e não a demolição em si .
Para demolir uma obra, a Demolidora adquire o direito de retirar o material para revenda.
A retirada do material pode ser chamada, portanto, de mola-mestra, criada dentro do serviço de demolição, mas esta atividade não envolve apenas técnicas manuais, quase artesanais, voltadas para a paciência e o cuidado.
São também profissionais de demolição engenheiros especializados, dedicados a técnicas mais rápidas de demolir, com objetivos que não o aproveitamento do material.

Se nessa ótica até a implosão, tecnologia altamente especializada, no mesmo fio longo do processo de demolir, mas em ponta diferente.


Demolições: um mundo onde nada se perde, tudo se salva. Uma cadeia que termina na revenda

 

Operação Salvamento
     



Fonte de renda: todo material é recuperado





Demolição junto ao meio ambiente.







Na demolição, cuidados para se aproveitar o máximo o material retirado.

Quando se diz "salvar absolutamente tudo" , não é apenas força de expressão .

O reaproveitamento passa não só pelos materiais de acabamento (portas, janelas, vitrôs, peças de madeira, grades, metal sanitário, azulejos), mas também por elementos da própria estrutura, como tijolos, ferragens, madeira, sem falar das plantas, que conforme seu tamanho e qualidade são salvas também, geralmente enviadas para o setor de parques e jardins da prefeitura.

A ordem é não destruir o que pode dar lucro nos depósitos das demolidoras. Localizados, em geral, na periferia, esses depósitos revendem material mais comum - peças antigas, raras, de alta qualidade são vendidas na própria obra por meio de anúncio em jornais, ficando expostas enquanto durar a demolição .
"Cliente certo para mercadoria certa", "Quem conhece compra, paga mais e não se importa".

São proprietários que vão pessoalmente ao depósito querendo descobrir coisas especiais que em lojas de construção não seriam encontradas.
Tijolos antigos, maiores, telhas mais grossas, portas e janelas de ferro trabalhado, muito mais caras que as novas.
São arquitetos interessados em projetar com base nesses materiais ou procurando atender às exigências de seus clientes. Os demolidores costumam ter encomendas de casas inteiras com determinadas características.
Logo que as encontram, telefonam ao cliente, que se encarregará de transportar os materiais ou até a casa completa para reconstituí-la idêntica em outro local.


Colecionadores e Paqueiros

Colecionadores também são clientes constantes para os materiais retirados . Entre eles podem ser incluídos os próprios demolidores, que freqüentemente guardam as peças encontradas.
Mas a demolição não vive essencialmente de empresas e seus operários. Existem trabalhadores subempreitados formando um grupo característico, tradicional, denomidados "paqueiros".

Vindos na sua maioria da Bahia (origem aliás responsável por 99 % da mão-de-obra hoje utilizada na demolição), de cidades como Varginha, Boquira, Paramirim, todas ao sul da Bahia, esses operários, parentes entre si, se cotizam para poder pagar por uma demolição e receber o direito de venda do material que retirarem.
Nesse caso existem demolidoras que servem como intermediárias entre proprietário, para quem pagarão pela demolição, e paqueiros, de quem receberão para ceder o serviço.



Equipamentos e proteção

Ao contrário do que possa parecer, a falta de equipamentos não causa acidentes na demolição.
Os empresários são unânimes em afirmar que esses operários baianos fazem o serviço com muito mais segurança do que outro operário não especializado, com todos os equipamentos necessários.

Rêne Franco, da Demolições Franco, é testemunha disso :
"Em meus 46 anos de atividade apenas um trabalhador morreu na obra, por falta de cuidado ao pisar em uma laje. Não há nem como utilizar outra mão-de-obra que não essa do sul da Bahia, porque hoje no pais é a única especializada".

E São Paulo é o estado que mantém esses grupos (as demolições feitas em qualquer lugar do Brasil são serviços de empresas paulistas).
Numa demolição, eles precisam ter como encarregado alguém de seu meio, que saiba desenvolver o trabalho, ou não dará certo."Você pode contratar um mestre de obras ou engenheiro experimentado, de uma grande construtora, e garanto que ele não conseguirá tocar a obra".

Os próprios paqueiros - explicam - têm uma maneira toda especial de negociar com os donos da demolidoras, envolvendo acordos informais, que só muita experiência e anos de convívio podem proporcionar .
"É preciso ter a sensibilidade deles, para conhecer as técnicas e saber dos perigos, se o prédio está ou não para cair, ou dentro de um túnel saber se há estabilidade. Um engenheiro pode não saber, mas eles sabem".

Mas se os empresários da demolição utilizam os baianos hoje e sabem que são os únicos especializados, os mais antigos como Renê Franco, lembram que hove um tempo (até meados de 1960) em que os operários vinham do país inteiro e até do Exterior."Naquela época haviam paulistas, mineiros, gaúchos, nordestinos, portugueses, espanhóis, alemães e até um russo. Eram operários mais qualificados do que os de hoje; mais esclarecidos, mais cultos, com outra mentalidade, de convivência mais fácil com os empresários".




Achados e Perdidos
 
     
Tenebroso mistério ! Quebrado um silêncio de 200 anos ! Ossadas humanas no coração da cidade!

São titulos de jornais do ano de 1948, quando a firma , cujo proprietário era José dos Santos, encontrou num prédio demolido ossadas de seis pessoas.

O "encontro macabro" como definia um dos jornais foi no prédio da antiga Brasserie Fasano, à praça Antonio Prado.

O jornal A Gazeta contou assim o achado :
"... supõe tratar-se de corpos sepultados na Igreja N. S. do Rosário do Homens Pretos, que há mais de duzentos anos foi ali construida, tendo sido demolida no começo do século, para em seu lugar ser erguido o prédio pertencente ao conde de Lara onde se estabeleceu posteriormente a Brasserie Fasano".
Foi também da firma de José dos Santos o serviço de demolição, em 1956, do primeiro prédio de construção metálica de São Paulo, retratada em matéria de A Gazeta:

Jornais importantes que noticiaram achados importantes pelos demolidores
Chaminé mais alta é demolida
"No momento em que as picaretas do progresso alcançam a fase final da demolição do velho edifício da praça do Patriarca (onde outra estivera instalado o Mappim) e outros tradicionais estabelecimentos do nosso alto comércio. É oportuno declarar que foi esse o primeiro prédio construido em São Paulo em 1909 (...). Na transformação estonteante por que passa grande metrópole, muitos prédios foram demolidos para, em seu lugar, se erguerem arranhacéus."





Salvar tudo ...

Cai a mais alta chaminé de São Paulo

Em 1983, a Folha de S. Paulo registra a demolição da mais alta chaminé de São Paulo, de 50 metros de altura .
"A silhueta dos dois demolidores, diz o jornal, em pé, equilibrando-se precariamente, enquanto desferiam golpes de picareta no topo da chaminé, despertou a atenção do público e uma pessoa, desesperada, chegou a ligar para o jornal com medo de que acontecesse um acidente, pois no seu entender os operários estavam completamente desprotegidos".


Demolição Mecanizada
   

Demolição mecanizada.
Os demolidores convencionais não constumam utilizar máquinas em sua atividade, por um fator primordial: onde existe esse equipamento não há aproveitamento de material.

Os casos especiais em que se pode fugir à regra são demolições com prazos urgentíssimos, em que as demolidoras cobram das construtoras proprietárias, pois não terão a receita advinda do material.

A utilização de máquinas na demolição sempre tem um custo muito alto para o demolidor.
Em geral utilizam-se equipamentos de terraplanagem, pás, escavadeiras e guindastes com peso na ponta, com custos altos de remoção de entulho, além do aluguel e transporte das máquinas.
Hoje alugar um equipamento de guindaste, colocar um peso e bater, é próprio de país rico, como EUA . Aqui, um dia de máquina já sobrepudiaria o trabalho da demolição convencional, muito mais barato. Além do mais, os fabricantes não dimensionaram as máquinas para dar pancadas.

Não existe máquina para isso , a não ser bate-estaca. Máquinas de içamento que fazem o trabalho, e nos Estados Unidos, quando colocam a bola é porque o equipamento já ultrapassou 20 mil horas de uso. Aqui, uma máquina com esse tempo é seminova.
"A operação nos Estados Unidos, é colocar uma bola em cima de uma treliça condenada, numa área já condenada, para demolir um prédio condenado. Quando se quebrar a treliça já condenada, retira-se outra na sucata, pondo-a na máquina. No Brasil, quando quebra uma treliça não tem onde arranjar outra. Não existe sucata desse equipamento.

Mercado

Como em todos os setores da construção, há crise. Nos anos passados, 90 obras por mês era o normal.
Hoje a média gera em 40 obras por mês.

As quatro maiores empresas detêm mais ou menos 70 a 80% do mercado. No ano passado, muitas construtoras compraram casas para demolir e frequentemente com prazos muito curtos.

As demolições eram feitas por máquinas, sem aproveitamento de material. Com a crise as construtoras grandes estão comprando terrenos de outras, cujos imóveis já foram demolidos.

Os maiores demolidores eram os bancos, principalmente em cidades do interior, onde agências proliferaram.
Hoje já não existe predominância de nenhum setor.
Temos atendido indústrias, bancos, construtoras e particulares na mesma proporção.
A crise preocupa, mas se sabe que a demolição nunca vai parar.
"Qualquer construção precisa de uma demolição" - "O moderno tem prioridade sobre o antigo".
É um trabalho difícil, dizem os empresários, mas não sabem classificar qual o tipo pior.
Cinema é um deles, pela altura. Outro exemplo são os galpões.

Renê Franco, por exemplo, chama a atenção para demolição do telhado, em qualquer obra.
"Sem ele a construção fica sem apoio e pode facilmente cair" .


Conhecimentos e Valores

Questionado quais os conhecimentos necessários para um demolidor, Franco os resumiu em dois itens: aspécto comercial - saber fazer orçamento, conhecer preços dos materiais, analisar uma obra com o máximo de segurança para evitar surpresas (mesmo assim a demolição é orçada com margem de 20% a menos ou a mais), e cita como exemplo um orçamento médio, numa demolição em que se retirarão 200 mil reais em material: a demolidora paga 50 mil à construtora e gasta 40 mil com mão-de-obra e 70 mil na retirada de entulho. O total de despesas é de 160 mil, com o lucro de 40 mil.

A técnica de demolição propriamente dita é o outro item necessário ao profissional. Exige conhecimento de concreto
(consistência), cálculos da quantidade de ferro (mesmo estruturas não vistas podem ser calculadas com segurança), tipos de estrutura, avaliação correta da quantidade de materiais empregados e grau de dificuldades para demolí-los.
Saber improvisar e decidir rapidamente quando houver surpresas ou dificuldades não esperadas, também é um ítem importante para o profissional.


Tombamento X Demolição

As vezes há brigas entre estes dois lados, mas quase nunca o demolidor está no meio dela.

A responsabilidade é oficialmente do proprietário, se houver demolição irregular. O orgão responsável pela fiscalização dos imóveis tombados é o Condephaat -Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, responsável pela última palavra antes da expedição do alvará de demolição pela prefeitura.

O interessado na demolição de um imóvel consulta o Condephaat e o orgão analisará a construção e seu entorno Segundo o presidente do conselho, os casos são classificados em três categorias: os mais graves, onde a demolição é feita em bens tombados, acionando-se aí a Justiça, com embargos da obra, os menos graves, quando há demolições do entorno e prejuízo da ambiência do bem tombado.
E os leves, com demolição regular mas feita sem solicitação.
Nos dois últimos casos existe prevista na legislação a aplicação de multa.
O presidente do Condephaat reconhece que o sistema atual não é satisfatório para o propriteário, que não tem nenhum incentivo para preservar seu imóvel:

"São Paulo possui uma tradição autofágica, e há falta de consciência coletiva com o patrimônio urbano".

Não é fácil surgir uma mentalidade social de preservação e as mudanças na legislação precisam partir principalmente da sociedade, numa pressão de baixo para cima.

No entanto, o presidente do Condephaat sabe que é urgente essa mudança, criando uma legislação mais avançada, que contemple o proprietário e ao mesmo tempo una a preservação e a inevitável escala do progresso. Há interesse, por parte do Condephaat, em promover acordos (alguns já convertidos) com os proprietários para tentar satisfazer ambos os lados.

Arte de Destruir

"Ser demolidor é agradável", "É uma lição de vida. Aprêndi muito sobre as pessoas e sobre si mesmo fazendo demolições".

O profissional de demolições, vive disso, não se nega a fazer seu trabalho, mas se sensibiliza com as coisas que encontra: "Através de uma casa se identificam os hábitos dos moradores. São construções feitas pelo proprietário para sua moradia, e nela ele punha o melhor".

A importação antigamente era muito fácil (os navios traziam materiais como lastro) e em cada detalhe de uma casa podia ser encontrado um material ou uma peça do exterior.

Uma das maiores jóias que um demolidor pode encontrar , (quando encontra, todo mundo fica sabendo) é o pinho-de-riga, madeira originária da Rússia, de Riga (com corte hoje proibido).

"A demolição é assim. O que se ganha nem sempre é proporcional ao que se gasta" - "Um sujeito trabalha anos para construir algo que em um mês é demolido".